Ozanet

Ano A - Terceiro Domingo da Quaresma

Escrito em 12/02/2023
Ozanet

Ano A - Terceiro Domingo da Quaresma

Leituras: Ex 17,3-7; Rom 5,1-2.5-8; Jo 4,5-42

 

“Todo aquele que bebe desta água voltará a ter sede.  Mas aquele que beber da água que Eu lhe der nunca mais terá sede: a água que Eu lhe der tornar se á nele uma nascente que jorra para a vida eterna.”

 

Leitura do Livro do Êxodo

Naqueles dias, o povo israelita, atormentado pela sede, começou a altercar com Moisés, dizendo:

“Porque nos tiraste do Egito? Para nos deixares morrer de sede, a nós, aos nossos filhos e aos nossos rebanhos?”

Então Moisés clamou ao Senhor, dizendo: “Que hei de fazer a este povo? Pouco falta para me apedrejarem”.

O Senhor respondeu a Moisés: “Passa para a frente do povo e leva contigo alguns anciãos de Israel.

Toma na mão a vara com que fustigaste o rio e põe-te a caminho.

Eu estarei diante de ti, sobre o rochedo, no monte Horeb.

Baterás no rochedo e dele sairá água; então o povo poderá beber”.

Moisés assim fez à vista dos anciãos de Israel.

E chamou àquele lugar Massa e Meriba, por causa da altercação dos filhos de Israel

e por terem tentado o Senhor, ao dizerem: “O Senhor está ou não no meio de nós?”

 

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos

Irmãos: tendo sido justificados pela fé, estamos em paz com Deus, por Nosso Senhor Jesus Cristo,

pelo qual temos acesso, na fé, a esta graça em que permanecemos e nos gloriamos,

apoiados na esperança da glória de Deus.

Ora, a esperança não engana, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações

pelo Espírito Santo que nos foi dado.

Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores.

Dificilmente alguém morre por um justo; por um homem bom, talvez alguém tivesse a coragem de morrer.

Deus prova assim o seu amor para conosco: Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores.

 

Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo, chegou Jesus a uma cidade da Samaria, chamada Sicar,

junto da propriedade que Jacob tinha dado a seu filho José, onde estava a fonte de Jacob.

Jesus, cansado da caminhada, sentou Se à beira do poço.

Era por volta do meio dia. Veio uma mulher da Samaria para tirar água.

Disse lhe Jesus: “Dá-Me de beber”.  Os discípulos tinham ido à cidade comprar alimentos.

Respondeu-Lhe a samaritana: “Como é que Tu, sendo judeu, me pedes de beber, sendo eu samaritana?”

De fato, os judeus não se dão com os samaritanos.

Disse lhe Jesus: “se conhecesses o dom de Deus e quem é Aquele que te diz: ‘Dá-Me de beber’,

tu é que Lhe pedirias e Ele te daria água viva”.

Respondeu-Lhe a mulher: “Senhor, Tu nem sequer tens um balde, e o poço é fundo:

donde Te vem a água viva? Serás Tu maior do que o nosso pai Jacob,

que nos deu este poço, do qual ele mesmo bebeu, com os seus filhos a os seus rebanhos?”

Disse Lhe Jesus: “todo aquele que bebe desta água voltará a ter sede.

Mas aquele que beber da água que Eu lhe der nunca mais terá sede:

a água que Eu lhe der tornar se á nele uma nascente que jorra para a vida eterna”.

“Senhor, suplicou a mulher dá me dessa água, para que eu não sinta mais sede e não tenha de vir aqui busca-la”.

Vejo que és profeta. Os nossos pais adoraram neste monte e vós dizeis que é em Jerusalém que se deve adorar”.

Disse lhe Jesus: “mulher, podes acreditar em Mim: Vai chegar a hora em que nem neste monte

nem em Jerusalém adorareis o Pai.

Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus.

Mas vai chegar a hora – e já chegou – em que os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai em espírito a verdade,

pois são esses os adoradores que o Pai deseja.

Deus é espírito e os seus adoradores devem adorá-lo em espírito e verdade”.

Disse-Lhe a mulher: “eu sei que há de vir o Messias, isto é, Aquele que chamam Cristo.

Quando vier há de anunciar nos todas as coisas”.

Respondeu lhe Jesus: “sou Eu, que estou a falar contigo”.

Muitos samaritanos daquela cidade acreditaram em Jesus, por causa da palavra da mulher.

Quando os samaritanos vieram ao encontro de Jesus, pediram-Lhe que ficasse com eles.

E ficou lá dois dias.

Ao ouvi-lo, muitos acreditaram e diziam à mulher: “Já não é por causa das tuas palavras que acreditamos.

Nós próprios ouvimos e sabemos que Ele é realmente o Salvador do mundo”.

 

Reflexão vicentina

Neste terceiro domingo da Quaresma, período de reflexão, de oração, de penitência e de caridade, as leituras nos mostram que o caminho para a conversão passa por nosso compromisso com a fé na misericórdia infinita de Deus.  Jesus nos convida a deixar de lado as nossas reclamações sobre o passado e seguir em frente, crendo Nele, como o pão que nos pode transformar e santificar inteiramente.

 

As pessoas nem sempre se lembram de que tudo vem de Deus.  Na leitura do livro do Êxodo, os judeus que tinham sido libertados por Deus do Egito estavam caminhando.  Caminharam por muito tempo (a bíblia nos diz 40 anos).  No seu caminho, ao encontrar a primeira dificuldade, começaram a reclamar que a vida anterior (de escravos) era melhor do que a que tinham agora.  Reclamavam da fome, diziam que Deus os tinha traído, libertando-os para uma situação pior do que a anterior. 

 

Mas Deus sempre mostra que caminha conosco.  Deus não responde às reclamações do povo de Israel com vingança (como talvez nós fizéssemos).  Ao contrário, diante da oração de Moisés para que fizesse algo pelo povo, Ele dá água em abundância, mas acima de tudo, transmite a confiança de que Ele caminha com o povo, não importando se a sua resposta é de gratidão ou de dúvida ou de reclamação.  “Eu estarei diante de ti, sobre o rochedo, no monte Horeb.  Baterás no rochedo e dele sairá água; então o povo poderá beber.”  Mas isto é feito, com a esperança de que o povo desperte do seu egoísmo e creia que, mais do que a fome física, o importante é a fome espiritual, a verdadeira libertação interior, o amadurecimento e a superação de seus próprios problemas.  E esta fome espiritual só pode ser saciada através da fé no Deus único.

 

E, em particular, a paixão, morte e ressurreição de Cristo selam a presença contínua de Deus conosco, ou melhor, dentro de nós.  Esta afirmação de que Deus sempre caminha com o seu povo, se confirma na Epístola de São Paulo aos Romanos.  Paulo nos mostra que a morte e ressurreição de Cristo e a vinda permanente do Espírito Santo são uma prova contundente do amor contínuo e infinito de Deus por nós.  “A esperança não engana, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado.  (...)  Deus prova assim o seu amor para conosco: Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores.”

 

O próprio Cristo nos diz no Evangelho que a água que o povo bebia até então (inclusive a que foi servida ao povo de Israel na fuga do Egito) é passageira, mas Ele é a água permanente que jamais poderá ser tirada.  “Todo aquele que bebe desta água voltará a ter sede.  Mas aquele que beber da água que Eu lhe der nunca mais terá sede: a água que Eu lhe der tornar-se-á nele uma nascente que jorra para a vida eterna”.

 

Como vicentinos, sabemos que tudo o que fazemos é baseado na permanente presença de Deus tanto na casa do Pobre, quanto dentro de nós.  Por isso, é necessário não contar com o agradecimento do assistido pelo que fazemos por ele e por sua família, quando os ajudamos a libertar-se da escravidão da pobreza.   Quantas vezes pensamos em cortar a ajuda a uma família, porque ela não corresponde ao que nós esperamos dela!  Julgamos com os nossos critérios e não nos pomos no lugar do Pobre, na profundidade de sua pobreza!  Não nos esqueçamos de que nós somos os representantes de Deus na casa do Pobre. Se queremos que Deus nos julgue com misericórdia, conhecendo a fundo nossas limitações, devemos também julgar os nossos assistidos com a mesma misericórdia divina, levando em conta as limitações deles.

 

Nosso caminho para a conversão e libertação deve ser trilhado através da conversão e libertação do Pobre que assistimos.  Caminhamos juntos e solidários na direção de Deus, bebemos da mesma água de Cristo.  Nós apoiamos o Pobre para que se levante e ande. Mas também Ele (como filho preferido de Deus) nos levanta e nos faz voltar a caminhar, quando fraquejamos.