Ozanet

Ano B - Terceiro Domingo da Quaresma

Escrito em 28/02/2027
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Ano B - Terceiro Domingo da Quaresma

Leituras: Ex 20,1-17; 1 Cor 1, 22-25; Jo 2, 13-25

 

“O que é loucura de Deus é mais sábio do que os homens; e o que é fraqueza de Deus é mais forte do que os homens”.

 

Leitura do Livro do Êxodo

Naqueles dias, Deus pronunciou todas estas palavras:

“Eu sou o senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, dessa casa da escravidão.

Não terás outros deuses perante Mim.

Não farás para ti qualquer imagem esculpida, nem figura do que já existe lá no alto dos céus

ou aqui em baixo na terra ou nas águas debaixo da terra.

Não adorarás outros deuses nem lhes prestarás culto.

Eu, o senhor teu Deus, sou um Deus cioso: castigo a ofensa dos pais nos filhos

até à terceira e quarta geração daqueles que Me ofendem; mas uso de misericórdia até à milésima geração

para com aqueles que Me amam e guardam os meus mandamentos.

Não invocarás em vão o nome do Senhor teu Deus,

porque o Senhor não deixa sem castigo aquele que invoca o seu nome em vão.

Lembrar-te-ás do dia de sábado, para o santificares.

Durante seis dias trabalharás e levarás a cabo todas as tuas tarefas. Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus. Não farás nenhum trabalho, nem tu, nem o teu filho, nem a tua filha, nem o teu servo nem a tua serva, nem os teus animais domésticos, nem o estrangeiro que vive na tua cidade.

Porque em seis dias o Senhor fez o céu, a terra, o mar e tudo o que eles contêm;

mas no sétimo dia descansou. Por isso, o Senhor abençoou e consagrou o dia de sábado.

Honra pai e mãe, a fim de prolongares os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te vai dar.

Não matarás.

Não cometerás adultério.

Não furtarás.

Não levantarás falso testemunho contra o teu próximo.

Não cobiçarás a casa do teu próximo; não desejarás a mulher do teu próximo,

nem o seu servo nem a sua serva, o seu boi ou o seu jumento, nem coisa alguma que lhe pertença”.

 

Leitura da Primeira Epístola do apóstolo São Paulo aos Coríntios

Irmãos: Os judeus pedem milagres e os gregos procuram a sabedoria.

Quanto a nós, pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios;

mas para aqueles que são chamados, tanto judeus como gregos, Cristo é poder e sabedoria de Deus.

Pois o que é loucura de Deus é mais sábio do que os homens

e o que é fraqueza de Deus é mais forte do que os homens.

 

Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo São João

Estava próxima a Páscoa dos judeus e Jesus subiu a Jerusalém.

Encontrou no templo os vendedores de bois, de ovelhas e de pombas e os cambistas sentados às bancas.

Fez então um chicote de cordas e expulsou-os a todos do templo, com as ovelhas e os bois;

jogou por terra o dinheiro dos cambistas e derrubou suas mesas; e disse aos que vendiam pombas:

“Tirai tudo isto daqui; não façais da casa de meu Pai casa de comércio”.

Os discípulos recordaram-se do que estava escrito: “Devora-me o zelo pela tua casa”.

Então os judeus tomaram a palavra e perguntaram-Lhe:

“Que sinal nos dás de que podes proceder deste modo?”

Jesus respondeu-lhes: “Destruí este templo e em três dias o levantarei”.

Disseram os judeus:

“Foram precisos quarenta e seis anos para se construir este templo e Tu vais levantá-lo em três dias?”

Jesus, porém, falava do templo do seu corpo.  Por isso, quando Ele ressuscitou dos mortos,

os discípulos lembraram-se do que tinha dito e acreditaram na Escritura e nas palavras que Jesus dissera.

Enquanto Jesus permaneceu em Jerusalém pela festa da Páscoa, muitos, ao verem os milagres que fazia,

acreditaram no seu nome.  Mas Jesus não se fiava deles, porque os conhecia a todos

e não precisava de que Lhe dessem informações sobre ninguém: Ele bem sabia o que há no homem.

 

 

 

Reflexão vicentina

Nesta semana do 3º. Domingo da Quaresma, a palavra-chave das leituras é “conversão”.  Na primeira leitura, o Livro do Êxodo nos apresenta os 10 mandamentos, como norma de vida para os judeus que saíram da escravidão do Egito e necessitavam de um guia para a sua conversão.  Na Carta de São Paulo aos Coríntios (segunda leitura), o apóstolo dos judeus da diáspora (que migraram para fora de Israel) e dos gentios e pagãos (em particular gregos) prega que a única conversão verdadeira é aquela que leva a seguir ao Cristo que foi “escândalo para os judeus e loucura para os gentios”, “pois o que é loucura de Deus é mais sábio do que os homens e o que é fraqueza de Deus é mais forte do que os homens”.  Finalmente, no Evangelho, Jesus expulsa os comerciantes do templo (o centro de referência dos judeus) e se apresenta como um “Novo Templo”: aquele que, sendo o Corpo de Cristo, seria reconstruído em três dias, com a sua própria morte e ressurreição.

 

Os Dez Mandamentos representam a essência da aliança de Deus com o seu povo, estabelecida no Monte Sinai, com os que haviam se libertado do Egito.  Esta aliança se refere a uma série de relações entre o Povo e o seu Deus (primeiros quatro mandamentos), assim como as relações de cada membro desta comunidade - Povo de Deus - com o seu próximo (seguintes seis mandamentos).  Os primeiros quatro mandamentos, portanto, sublinham a centralidade que o Deus verdadeiro deve assumir no coração e na vida do seu Povo, que não deve se deixar seduzir por outros deuses (do dinheiro, do poder, dos vícios). Os seis últimos mandamentos nos convidam a nos despir dos comportamentos que geram violência, egoísmo, agressividade, cobiça, intolerância, escravidão e indiferença face às necessidades dos outros.

 

Paulo, em sua Carta aos Coríntios desta semana, mostra a falta de lógica humana na lógica do Deus verdadeiro que veio ao encontro do Seu Povo, através da morte e ressurreição de Seu próprio Filho.  Para os judeus, isto era ilógico, porque esperavam exibições espetaculares de um rei que viesse libertar o povo de forma vitoriosa e guerreira dos romanos.  Para os gregos, a Cruz era ilógica, porque Jesus não se apresentou como um filósofo de dialética inatacável, mas sim, como o Mestre do Amor.  

 

No Evangelho, João situa o episódio da expulsão dos comerciantes do templo, nos dias que antecedem a festa da Páscoa. Era a época em que as grandes multidões se concentravam em Jerusalém para celebrar a festa principal do calendário religioso judaico. Jerusalém, que normalmente teria cerca de 55.000 habitantes, chegava a albergar cerca de 125.000 peregrinos nesta época. No Templo sacrificavam-se cerca de 18.000 cordeiros, destinados à celebração pascal[1].  É possível imaginar o quanto o sumo sacerdote arrecadava nesta época, com o comércio no templo!

 

Jesus não só mostra toda a sua raiva com a difamação do templo, quanto desafia os sacerdotes dizendo que o verdadeiro Templo seria destruído e reconstruído em 3 dias.  Evidentemente, este desafio gerou uma oposição ferrenha dos sacerdotes do “templo de pedra” em relação a Jesus.  Por outro lado, os discípulos só entenderam as palavras de Jesus, quando a morte e a ressurreição (ao terceiro dia) aconteceram.

 

Para nós, vicentinos, ficam alguns questionamentos para a reflexão durante a Quaresma.  Que sentido têm os 10 mandamentos para nós?  Devemos ficar restritos aos mandamentos ou assumir com toda a força o “comportamento irracional” da “loucura do amor” de Deus por nós, através do amor pelos que assistimos?  Considerando que “somos o Templo do Espírito Santo”, que templo queremos ter dentro de nós: o de pedra que abriga os comerciantes ou o do Cristo que deve ser reconstruído e renovado sempre, na vivência de Sua morte e ressurreição?