Ozanet

Ano A - Primeiro Domingo da Quaresma

Escrito em 18/02/2029
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Ano A - Primeiro Domingo da Quaresma

Leituras: Gen 2,7-9;3,1-7; Rom 5,12-19; Mt 4,4b

 

“Como pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim também, pela obediência de um só, muitos se tornarão justos.”

 

Leitura do Livro do Gênesis

O Senhor Deus formou o homem do pó da terra, insuflou em suas narinas um sopro de vida,

e o homem tornou-se um ser vivo.

Depois, o Senhor Deus plantou um jardim no Éden, a oriente, e nele colocou o homem que tinha formado.

Fez nascer na terra toda a espécie de árvores, de frutos agradáveis à vista e bons para comer,

entre as quais a árvore da vida, no meio do jardim, e a árvore da ciência do bem e do mal.

Ora, a serpente era o mais astucioso de todos os animais do campo que o Senhor Deus tinha feito.

Ela disse à mulher: “é verdade que Deus vos disse: “Não podeis comer o fruto de nenhuma árvore do Jardim”?”

A mulher respondeu: “podemos comer o fruto das árvores do jardim; mas, quanto ao fruto da árvore que está no meio do jardim,

Deus avisou-nos: “não podeis comer dele nem tocar-lhe, senão morrereis”“.

A serpente replicou à mulher: “de maneira nenhuma! Não morrereis.

Mas Deus sabe que, no dia em que o comerdes, abrir-se-ão os vossos olhos e sereis como deuses,

ficando a conhecer o bem e o mal”.

A mulher viu então que o fruto da árvore era bom para comer e agradável à vista, e precioso para esclarecer a inteligência.

Colheu o fruto e comeu-o; depois deu-o ao marido, que estava junto dela, e ele também comeu.

Abriram-se então os seus olhos e compreenderam que estavam despidos.

Por isso, entrelaçaram folhas de figueira e cingiram os rins com elas.

 

Leitura do apóstolo São Paulo aos Romanos

Irmãos: assim como por um só homem entrou o pecado no mundo e pelo pecado a morte,

assim também a morte atingiu todos os homens, porque todos pecaram.

De fato, até à Lei, existia o pecado no mundo.  Mas o pecado não é levado em conta, se não houver lei.

Entretanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, mesmo para aqueles que não tinham pecado

por uma transgressão à semelhança de Adão, que é figura d’Aquele que havia de vir.

Mas com o dom gratuito, não se dá o mesmo que com a falta.

Se pelo pecado de um só pereceram muitos, com muito mais razão a graça de Deus,

dom contido na graça de um só homem, Jesus Cristo,

se concedeu com abundância a muitos homens.

E esse dom não é como o pecado de um só: o julgamento que resultou desse único pecado levou à condenação,

ao passo que o dom gratuito, que veio depois de muitas faltas, leva à justificação.

Se a morte reinou pelo pecado de um só homem, com muito mais razão, aqueles que recebem com abundância

a graça e o dom da justiça, reinarão na vida por meio de um só, Jesus Cristo.

Porque, assim como pelo pecado de um só, veio para todos os homens a condenação,

assim também, pela obra de justiça de um só, virá para todos a justificação que dá a vida.

De fato, como pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores,

assim também, pela obediência de um só, muitos se tornarão justos.

 

Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo, Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, a fim de ser tentado pelo Demónio.

Jejuou quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome.

O tentador aproximou se e disse lhe: “Se és Filho de Deus, diz a estas pedras que se transformem em pães”.

Jesus respondeu lhe: “está escrito: ‘Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus’”.

Então o Demônio conduziu O à cidade santa, levou O ao pináculo do templo e disse Lhe:

“Se és Filho de Deus, lança Te daqui abaixo, pois está escrito: ‘Deus mandará aos seus Anjos que te recebam nas suas mãos,

para que não tropeces em alguma pedra’”.

Respondeu lhe Jesus: “também está escrito: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’”.

De novo o Demónio O levou consigo a um monte muito alto,

Mostrou-Lhe todos os reinos do mundo e a sua glória, e disse Lhe:

“Tudo isto Te darei, se, prostrado, me adorares”.

Respondeu lhe Jesus: “vai te, Satanás, porque está escrito: ‘adoraras o Senhor teu Deus e só a Ele prestaras culto’”.

Então o Demónio deixou-O e logo os Anjos se aproximaram e serviram Jesus.

 

Reflexão vicentina

Nesta semana, iniciamos a Quaresma, com a celebração da Quarta-feira de Cinzas.

 

As leituras deste domingo nos falam sobre a tentação do mal em nossas vidas.  Em muitas partes da Bíblia, o demônio se mostra tentando as pessoas, levando-as a responder, quer com a fortaleza da virtude e da fé em Deus, quer com a fraqueza da “queda” no vício.   Portanto, há dois aspectos importantes na questão da tentação do demônio: em primeiro lugar, é importante aceitar que ela existe e acontece todo o tempo em nossa vida, levando-nos a optar entre o demônio e Deus.  Em segundo lugar, o mais importante é pedir a Deus que nos acompanhe no momento da tentação, para que façamos a opção correta.

 

Ser santo não é estar livre da maldade.  Ao contrário, alguns dos santos mais conhecidos de nossa história tiveram a “conversão na conversão” (como São Vicente de Paulo, como Santo Agostinho) e também tiveram suas “noites escuras” de dúvida e tentação (como Santa Teresa de Calcutá, como São João da Cruz).  O demônio não é uma peça de ficção: ele existe para tentar-nos e para nos fazer mal. 

 

No livro do Gênesis, Deus havia dito claramente a Adão e Eva para não comer a maçã, porque ela poderia matá-los.  A serpente (o mal) disse a Eva que eles deveriam comer a maçã, porque ela não lhes mataria, mas, pelo contrário, se a comessem, “seus olhos se abririam e eles seriam como deuses, passando a conhecer (ou controlar) o bem e o mal”.

 

O paralelo desta “queda na tentação do poder e do mal” se apresenta no Evangelho, no famoso texto onde o demônio tenta a Jesus no deserto (até Jesus foi tentado, portanto!).  Ele provoca Jesus através de três tentações: a riqueza, a glória e o poder.  Jesus responde de forma muito diferente de Eva e Adão.  Ao ver os “os reinos do mundo”, o demônio Lhe diz: “tudo isto Te darei, se, prostrado, me adorares”.  Jesus responde: “Vai-te, Satanás, porque está escrito: ‘adoraras o Senhor teu Deus e só a Ele prestaras culto´”.

 

O que é importante é a nossa resposta à tentação.  Na oração do Pai-Nosso, rezamos “não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal”.  Em realidade, Jesus não nos pede que rezemos para que nunca sejamos tentados, porque isto é impossível: seria totalmente contra a liberdade (o livre-arbítrio) com que Ele mesmo nos criou.  Nós rezamos para que, no momento da tentação, nós não caiamos na maldade e no vício, mas que nos livremos deles.

 

Em outra parte do Evangelho, na Parábola do Joio e do Trigo, Jesus nos dá uma ideia sobre o que devemos fazer quando somos tentados.  Quantas vezes queremos arrancar o mal que as pessoas nos fazem logo de início; quantas vezes queremos arrancar imediatamente de nossa vida, as pessoas que nos fazem mal!  Pode ser que o mal nos possa ensinar alguma coisa.  Pode ser que Deus deixe que uma tentação ou uma ação do demônio subsista em nossa vida por um tempo, para que elas nos façam acordar, converter-nos ou compreender a “intenção do Espírito” para nós.  Pode ser que seja o próprio Deus utilizando o demônio como agente de nossa conversão; afinal, Deus é maior do que o demônio!

 

Se tentamos brigar com o demônio utilizando o mal, somente vamos aumentá-lo e trazê-lo para dentro de nós.  Eu nunca tento negociar ou brigar com o demônio, porque eu não sei fazer isso.  Eu não sei como discutir com quem me faz mal.  Sempre penso que, tentando brigar com o demônio ou tentando “arrancar o joio”, eu arranque também o trigo (o bem que eu tenho em minha alma).  Por isso, creio que é melhor deixar que Deus arranque o joio no tempo que Ele determine: o mal que o joio me faz, eu ofereço a Deus pelos meus.

 

Como vicentinos, também somos tentados todo o tempo, tanto no serviço ao Pobre, quanto no relacionamento com os outros ou conosco mesmos.  Ozanam e seus amigos descobriram que, se eles se agrupassem, com o mesmo objetivo (o de santificarem-se), seria mais fácil resistir a estas tentações.  Está aí uma razão fundamental de existência da Conferência Vicentina!