Ozanet

Ano B - Quarto Domingo do Tempo Comum

Escrito em 03/02/2030
Ozanet

Ano B - Quarto Domingo do Tempo Comum

Leituras: Dt 18,15-20; 1 Cor 7, 32-35; Mc 1, 21-28

 

Todos podemos ser profetas se perdermos o medo de nos libertar das coisas temporais e se buscarmos constantemente o serviço a Deus e aos irmãos.

 

Leitura do Livro do Deuteronômio

Moisés falou ao povo, dizendo:

“O Senhor teu Deus fará surgir no meio de ti, de entre os teus irmãos,

um profeta como eu; a ele deveis escutar.

Foi isto mesmo que pediste ao Senhor teu Deus no Horeb, no dia da assembleia:

‘Não ouvirei jamais a voz do Senhor meu Deus, nem verei este grande fogo, para não morrer’.

O Senhor disse-me:

‘Eles têm razão; farei surgir para eles, do meio dos seus irmãos, um profeta como tu.

Porei as minhas palavras na sua boca e ele lhes dirá tudo o que Eu lhe ordenar.

Se alguém não escutar as minhas palavras que esse profeta disser em meu nome,

Eu próprio lhe pedirei contas.

Mas se um profeta tiver a ousadia de dizer em meu nome o que não lhe mandei,

ou de falar em nome de outros deuses, tal profeta morrerá’”.

 

Leitura da Primeira Epístola do apóstolo São Paulo aos Coríntios

Irmãos:

Não queria que andásseis preocupados.

Quem não e casado preocupa-se com as coisas do Senhor, com o modo de agradar ao senhor.

Mas aquele que se casou preocupa-se com as coisas do mundo,

com a maneira de agradar à esposa, e encontra-se dividido.

Da mesma forma, a mulher solteira e a virgem preocupam-se com os interesses do Senhor,

para serem santas de corpo e espírito.

Mas a mulher casada preocupa-se com as coisas do mundo, com a forma de agradar ao marido.

Digo isto no vosso próprio interessa e não para vos armar uma cilada.

Tenho em vista o que mais convém e vos pode unir ao Senhor sem desvios.

 

Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo São Marcos

Jesus chegou a Cafarnaum e quando, no sábado seguinte, entrou na sinagoga e começou a ensinar,

todos se maravilhavam com a sua doutrina, porque os ensinava com autoridade e não como os escribas.

Encontrava-se na sinagoga um homem com um espírito impuro, que começou a gritar:

“Que tens Tu a ver conosco, Jesus Nazareno? Vieste para nos perder? Sei quem Tu és: o Santo de Deus”.

Jesus repreendeu-o, dizendo: “Cala-te e sai desse homem”.

O espírito impuro, agitando-o violentamente, soltou um forte grito e saiu dele.

Ficaram todos tão admirados, que perguntavam uns aos outros: “Que vem a ser isto?

Uma nova doutrina, com tal autoridade, que até manda nos espíritos impuros e eles obedecem-Lhe!”

E logo a fama de Jesus se divulgou por toda a parte, em toda a região da Galileia.

 

 

 

Reflexão Vicentina

As leituras desta semana parecem que não têm nenhuma ligação uma com as outras.  O que tem a ver uma primeira leitura que fala sobre o envio de um profeta, com uma segunda leitura que fala sobre as responsabilidades do homem e da mulher no casamento, e com o Evangelho, em que Jesus expulsa um demônio?

 

Na realidade, as leituras têm uma linha de raciocínio comum, contundente e muito vicentina: elas nos ensinam que todos podemos ser profetas se perdermos o medo de nos libertar das coisas temporais e se buscarmos constantemente o serviço a Deus e aos irmãos.  Se o fizermos, Deus mesmo, com Sua autoridade, se encarregará de nos livrar das tentações e da ação do mal.

 

Na leitura do Deuteronômio, Moisés afirma que o profeta é alguém que Deus escolhe, que Deus chama e que Deus envia para ser a Sua Palavra viva no meio dos homens.  O Livro do Deuteronômio é o “livro da Lei” ou “livro da Aliança” que, através de três discursos de Moisés, apresenta a teologia fundamental do Povo de Deus: há um só Deus, que deve ser adorado por todo o Povo num único local de culto (Jerusalém); esse Deus amou e elegeu Israel e fez com Ele uma aliança eterna.  O texto de hoje discute o significado do “ser profeta” e a diferenciação entre o verdadeiro e os falsos profetas.  Ele aponta Moisés como o exemplo do profeta, no sentido de mostrar que não foi Moisés que se candidatou à missão profética, por sua iniciativa; não foi Moisés que conquistou, pelas suas ações ou pelas suas qualidades, o direito à profecia. A iniciativa foi de Deus que, de forma gratuita, o escolheu, o chamou e o enviou em missão.  Como o Papa Benedito XVI costumava dizer: “Deus não escolhe os capacitados, mas capacita os escolhidos”.  A resposta servidora do verdadeiro profeta é profetizar tudo o que Deus “colocar em sua boca”.

 

Na Carta aos Coríntios, Paulo nos convida a não ter medo de nos libertar das coisas temporais.  Sem nos atermos aos detalhes das recomendações da conduta dos homens e mulheres, Paulo insiste que devemos fazer nossas escolhas de forma a sempre nos “unir ao Senhor sem desvios”.  No contexto particular da mensagem, Paulo sempre valorizou o casamento como um dom de Deus, mas apresenta a virgindade como sinal de desprendimento, de doação, de disponibilidade e deve ser positivamente valorizada. Aqueles que são chamados a viver dessa forma não são gente estéril e infeliz, alheia às coisas bonitas da vida, mas são pessoas generosas, que renunciaram a um bem (o matrimônio) em vista da sua entrega a Deus e aos outros.

 

No Evangelho de Marcos, Jesus mostra com autoridade que pode expulsar o mal que nos escraviza, tornando-nos livres, desde que declaremos que Ele é o “Santo de Deus”.  Não nos esqueçamos de que nesta fase, Jesus estava escolhendo e “conquistando” os seus discípulos, e, em particular, os apóstolos.  Jesus vai, em um sábado, falar na sinagoga.  E fala tão bem, tão diferente dos escribas (estudiosos das Escrituras) normais, que mostra a sua autoridade.  Aqui, mais uma vez, Deus mostra que capacita os escolhidos, porque Jesus não era um escriba, era filho de um carpinteiro!  Para completar, a “autoridade” de Jesus se mostra em uma ação concreta: a libertação do homem que tinha um “espírito impuro”.

 

Para nós vicentinos, a mensagem é clara!  Por intermédio de nosso carisma do encontro com o Pobre, da oração constante e da defesa da justiça social, Deus nos dá a autoridade para sermos profetas.  Falamos do que conhecemos e vivemos.  E Deus nos qualifica como verdadeiros profetas, porque nos permite distanciar das coisas do mundo, mas estando no mundo e servindo no mundo.  

 

Às vezes, temos medo do que dizer na visita à casa do assistido; temos medo do que dizer em um encontro de formação da SSVP.  Jesus vem comunicar novamente hoje: “não tenha medo!”  Ele nos capacita; o Espírito Santo nos concede o dom da sabedoria e da ciência para ser sinal e profeta do amor de Deus no encontro com o Pobre, no serviço ao irmão vicentino e no dia-a-dia de nosso trabalho e de nossa vida social.  O único que Deus nos pede é a escolha: sempre pela virtude, nunca escolher o vício.  Mas, mesmo se, como verdadeiros profetas, cairmos na tentação da escolha do vício, não tenha medo!  Ainda assim, Jesus vem com a Sua autoridade e nos liberta do “espírito impuro” para que possamos entrar puros novamente na “sinagoga”, no Seu Reino.