Introdução

A título de introdução a este livro de reflexões vicentinas semanais, gostaria de apresentar o que o Conselho Geral Internacional da SSVP vem definindo como a trilogia da vocação vicentina, ou seja, os três componentes do que compreendemos ser a essência da SSVP, inclusive em uma perspectiva histórica.  

Relembrar a essência da SSVP (isto é, o espírito primitivo que moveu os seus fundadores em 1833) é fundamental para a sua sobrevivência e para a sua missão e ação no mundo de hoje.  Qualquer decisão que tomamos como membros de Conferências e Conselhos deve ser guiada por esta essência.

Mas, sobretudo, a essência da SSVP deve ser aquilo que move cada um de nós, individualmente, a seguir a sua vocação vicentina.  Ozanam e seus companheiros foram inicialmente movidos pelo desafio intelectual.  Queriam utilizar seus conhecimentos e o ambiente da Universidade da Sorbonne na França, para defender sua fé em Deus e a justiça: por isso, criaram as Conferências de História.  Estas Conferências já tinham um enorme valor em si mesmas; eram a arena onde podiam defender a Igreja dos ataques que sofria durante o Iluminismo.  Utilizavam o mesmo rigor acadêmico e científico que os intelectuais da época, mas para evangelizar: que extraordinária missão!  A Conferência de História era o meio pelo qual Ozanam e seus amigos punham todo o seu conhecimento e o seu trabalho para se santificar, para estar mais perto de Deus, desafiando os ateus, em especial, os sansimonianos.  Mas tudo isso era feito em um ambiente protegido; cada um protegia e era protegido pelos demais membros da Conferência.

Em um dado momento, Deus os tocou de forma diferente, mas com o mesmo objetivo.  Mostrou a eles que o serviço direto, solidário e pessoal ao Pobre seria o verdadeiro meio de sua santificação.  Isto fez com que transformassem a Conferência de História na Conferência de Caridade.  Mas muito da essência da Conferência de História se manteve: a busca da santificação e a formação de um grupo de amigos que o fizessem juntos. 

De um certo modo, podemos fazer um paralelo entre o que passaram os fundadores da SSVP e o que inspirou São Paulo a proclamar as virtudes teologais da fé, esperança e caridade.  A defesa da Igreja contra os sansimonianos e o exercício contínuo da oração e contemplação expressavam a incondicional no Cristo.  Esta fé foi reforçada pela relação mística que passaram a ter com o Pobre como seu Senhor.  Pouco a pouco, os jovens estudantes foram descobrindo o que existia no mais íntimo de si como dons de Deus e passaram a utilizá-los para pregar uma esperança consciente.  Mostraram que a esperança não é a busca de uma fantasia, de um futuro que não existe na prática, mas é a identificação clara do que temos de virtude e de capacidade no mais íntimo de nós e de nossa disponibilidade para a geração de uma cultura de verdade e vida.  E isto ocorreu, justamente em um ambiente da França do início do século dezenove, onde existia a cultura da morte, do negativismo, da negação das coisas de Deus, do Iluminismo exacerbado, do materialismo e da soberba individualista do homem em relação a Deus.  Esta esperança foi igualmente reforçada pelo que aprendiam do Pobre como Mestre.  Finalmente, Ozanam e seus amigos sentiram a necessidade de transmitir aos outros a sua fé e esperança através da caridade.   Já não era mais possível limitar a sua ação a uma sala de Conferências de História.  Era preciso abrir a porta para o serviço incondicional ao Pobre e à justiça.  De fato, a caridade é uma forma sublime de justiça e a justiça se nutre da caridade (as duas são indissociáveis).  Será que não nos defrontamos hoje com o mesmo ambiente dos fundadores da SSVP?

Esta é a origem da trilogia da vocação vicentina, que pode ser definida da seguinte forma: o encontro com o Pobre, a busca da santificação pessoal e a defesa da justiça social.

Certa vez, perguntou-se a um monge, porque é tão difícil atrair mais pessoas para a vocação monástica.  A comparação que ele fez foi com um uma manada de animais que corre atrás de uma caça.  Os que correm sem ver a caça, pouco a pouco vão desistindo e deixando a manada.  Somente os que conseguem ver a caça continuam, porque são movidos pela possibilidade de alcançá-la.  Os que não a veem, correm atrás de outros, de líderes e liderados, que são guias muito importantes, mas seu testemunho não é suficiente para o sacrifício da corrida. 

Assim mesmo acontece conosco, vicentinos.  É necessário que vejamos e sintamos a “caça”, a essência, o propósito fundamental da SSVP, e que ela nos transforme, para que a tomemos em uma vocação consistente, contínua e eterna em nossas vidas.

Mas também é necessário ajudar os outros a participar permanentemente da “corrida pela caça”.    Há alguns que não conhecem a “caça” e estão fora da corrida: é preciso trazê-los para que a reconheçam e a amem através da prática do encontro com o pobre, da santificação pessoal e da defesa da justiça.  Há outros que estão cansados de correr atrás da “caça” e se desmotivam pelos espinhos que a vida apresenta: é preciso ir ao encontro deles, individualmente.  Cada vicentino ou vicentina que trazemos de volta à sua vocação é um novo santo, uma luz no mundo e um sal da terra.   Há outros ainda que participam da corrida mas vão devagar: é preciso respeitar a sua velocidade, mas ajudá-los a nunca deixar de mirar a “caça”.

Passemos então a detalhar cada um dos elementos da trilogia da vocação vicentina, isto é: (1) o encontro com o Pobre (2) a santificação pessoal; e (3) a defesa da justiça.  

O encontro com o Pobre é o encontro com o nosso “Mestre e Senhor”.  São Vicente costumava chamar o Pobre desta forma.  O Papa Francisco costuma dizer que devemos implantar a “cultura do encontro” em nossa vida: o encontro com o outro da família, o encontro com a comunidade paroquial, o encontro com a periferia (aí estão os Pobres!), o encontro em busca da paz, o encontro com Deus que está dentro de nós.

Devemos ir ao encontro do Pobre como nosso Mestre, porque Ele nos ensina o caminho para a verdade e a vida.  Muitas vezes nos preocupamos demais com o que vamos dizer ao assistido ou assistida, quando vamos fazer visita.  Quantas vezes, especialmente quando comecei a vida vicentina aos nove anos, tive esta ansiedade e esta preocupação.  Com o tempo comecei a ver que nosso papel é muito mais escutar do que falar.  Mas tem que ser o que no meio empresarial chamamos de “escuta ativa”.  Primeiramente, é preciso entender o que o assistido nos diz; às vezes o que ele quer dizer não é o que ele expressa, pode ter uma longa história de pobreza, de frustrações e também de alegria por trás de suas palavras.  Em segundo lugar, é preciso aprender do Pobre, porque Ele é Deus em corpo e alma dizendo algo para nós.  Esta é a parte mais mística e mais bela do encontro com Ele: é Deus na pessoa de seu mais querido filho dando uma aula de catequese para nós.  São João Paulo II dizia que os quatro anos em que foi operário compartilhando jornadas com os pobres valeram mais para ele do que o seu doutorado de teologia. 

Devemos ir ao encontro do pobre como nosso Senhor, porque a Ele devemos contas; a Ele servimos; a Ele devemos dedicar todos os dons que o Senhor Deus nos deu.  Aprender do Mestre é muito importante, mas se este aprendizado não se traduz em mudança de vida para Ele e para nós, estamos desperdiçando um presente que Deus põe gratuitamente em nossas mãos.

A santificação pessoal é o fundamento da vocação vicentina.  Este segundo elemento da trilogia foi o primeiro objetivo dos fundadores da SSVP, como vimos antes.  Eles queriam se reunir em grupos pequenos para juntos caminharem na santidade.  Isto é muito belo!  O Papa Bento XVI dizia que preferia uma Igreja com 350 milhões de católicos fervorosos do que com um bilhão de católicos de pouca fé.  A Igreja foi fundada por uma comunidade muito pequena, de doze líderes que atuavam junto com a Mãe do Senhor: todos iluminados pelo Espírito Santo.  A Conferência Vicentina deve ser como esta comunidade apostólica!  Mas não devemos também nos esquecer de que temos que ser santos individualmente também.  São Vicente e Ozanam passavam horas diante do Santíssimo Sacramento e levavam o que escutavam desta visita para o seu dia-a-dia de sacerdote, de professor, de amigo, de líder comunitário e de chefe de família.

Finalmente, a defesa da justiça é o componente mais difícil da trilogia vocacional vicentina.  Ozanam escrevia, ensinava, pregava, discursava e vivia a justiça social.  São João Paulo II insistia em nossa missão fundamental de trazer vida a uma sociedade impregnada pela “cultura da morte”.  Para isso somos chamados como católicos e vicentinos.  A justiça deve ser buscada para o nosso Senhor, o Pobre, em nossas visitas.  A justiça deve ser buscada nas relações de trabalho digno (Ozanam escreveu tanto sobre isso!).  A justiça deve ser buscada nas relações entre os governantes e pessoas de poder e os cidadãos comuns (outro tema caro a Ozanam!).  A justiça deve ser buscada na verdade evangélica, com simplicidade, humildade, mansidão, na mortificação e no zelo (de acordo com o próprio Vicente de Paulo): estas são as virtudes do líder vicentino que vive a justiça em sua vida.

Uma vez tendo detalhado um pouco mais os componentes da trilogia da vocação vicentina, gostaria de ressaltar a importância da liderança vicentina para propagá-la tanto do ponto de vista quantitativo, quanto qualitativo.  Todos somos chamados a ser líderes de alguma forma e em algum contexto.  A algumas e alguns, Deus chama para liderar unidades vicentinas, como presidentes de Conferências, de Conselhos, de obras de caridade, ou de comissões e projetos específicos.

Aos líderes é solicitado que assumam uma função missionária de viver a vocação vicentina em tudo o que fazem, não só na vida vicentina, como também na social e na profissional.  Se a vocação vicentina é baseada no encontro com o Pobre, o líder vicentino deve ir a este encontro com muito mais vontade que os demais.  Se a vocação vicentina está fundamentada na santificação pessoal, o líder vicentino deve viver a santidade de uma forma muito mais profunda que os demais.  Se a vocação vicentina se assenta sobre a defesa da justiça, o líder vicentino tem que buscá-la de forma integral, mais que os demais.

Não se trata de que o líder vicentino seja melhor do que os outros.  Ao contrário, como nas palavras de São Paulo, deve buscar a fortaleza na fraqueza, colocando nas mãos de Deus sua reta intenção de ser o guardião da vocação vicentina.

De uma forma um pouco mais prática, gostaria de dar algumas pistas sobre como realizar esta missão.  A liderança vicentina realiza sua ação, a meu ver, em cinco funções fundamentais: recrutar, formar, desenvolver, relacionar-se e gerenciar.  O desafio é colocar a simplicidade da trilogia vicentina em cada uma destas funções.

A função de recrutar deve ser feita através da paixão pela vivência vicentina.  Realizar grandes eventos vicentinos de recrutamento é uma ação muito importante.  Mas minha experiência mostra que o convite individual é muito mais eficaz.  A SSVP não recruta para aumentar o número de seus membros; ela recruta para converter mais pessoas em santos.  Apesar das regras (às vezes um pouco rígidas) da SSVP, devemos sempre considerar que cada vicentino ou vicentina se santifica de um modo diferente dos outros, encontra o Pobre à sua própria maneira e busca a justiça em um meio específico de sua vida pessoal e social.  Portanto, o líder vicentino deve identificar meios efetivos, modernos e específicos para trazer mais indivíduos, com seus intelectos e sua alma, para o serviço do Pobre.

A função de formar deve ser enfocada na simplicidade da vocação.  Muitas vezes complicamos nossos cursos de formação.  Desenvolvemos vários volumes de material de cursos (muito bons, por sinal!) e os organizamos em muitos módulos.  Medimos a formação muito mais pela dedicação das pessoas a ela, do que pela transformação que ela deve realizar em cada vicentino individualmente. Infelizmente, o mundo imediatista de hoje não dá tempo para que as pessoas ponham nos cursos de formação a quantidade de dedicação que planejamos. 

Me parece que a solução para este impasse é a estratégia jesuítica do enfoque e da simplicidade evangélica.  Estou convencido de que devemos enfocar o conteúdo da formação na trilogia da vocação: o encontro com o Pobre, a santificação pessoal e a defesa da justiça.  Tudo o mais é supérfluo e pode ser obtido em outros cursos ou pela Internet: felizmente, não se pode encontrar o Pobre ou santificar-se pela Internet!  Ao mesmo tempo, a simplicidade evangélica deve se traduzir nos meios como formamos os vicentinos e vicentinas.  Jesus falava por meio de parábolas sobre a vida no campo: nada mais simples.  Devemos encontrar meios modernos de tocar o coração dos vicentinos e não tanto o seu intelecto.  Como é difícil, meu Deus, realizar esta função pastoral com simplicidade!

A função de desenvolver deve ser fundamentada na missão apostólica.  Desenvolvimento na vida vicentina significa levar a mensagem a todo o mundo, independentemente de raça, religião, nacionalidade, gênero e status social.  Portanto, esta função tem dois componentes: o crescimento da SSVP e a pregação.  O crescimento se concentra na criação de novas Conferências e Conselhos e no reforço das existentes.  Esta é uma preocupação do líder vicentino que sabe que quanto mais Conferências tenhamos, mais grupos formaremos de apóstolos que buscam a sua santificação através do encontro com o pobre e a defesa da justiça.  O crescimento da SSVP tem a consequência da formação de uma sociedade de maior fé, de maior esperança e de maior caridade: é uma missão extraordinária!  A pregação se concentra na ida ao encontro de quem necessita escutar a mensagem transformadora da caridade e da justiça.  O líder vicentino prega na paróquia, no trabalho, nos meios de liderança pública e privada, nos terrenos férteis e no deserto.  Para isto, é necessário que “saiamos de nós mesmos” e confiemos que o Espírito Santo nos capacita para a pregação, assim como fez com os pobres pescadores escolhidos por Cristo.  Gosto muito das palavras de São Francisco de Assis sobre a pregação: “pregue o Evangelho sempre e, se necessário, use palavras”: é a nossa vida que prega mais alto que nossas palavras.

A função de relacionar-se (a mais difícil) deve ser baseada no serviço.  Na SSVP, somos voluntários que dedicamos o nosso (escasso) tempo para servir.  Assim devemos ser tratados por nossos líderes.  De um certo modo, o líder vicentino deve tratar os confrades e consocias da mesma forma que trata os Pobres que serve: com mais misericórdia e menos julgamento, com mais convencimento do que ordens, com mais compreensão do que regras, com muito mais simplicidade e humildade que arrogância.  Se não tratarmos nossos confrades e consocias desta forma, eles se desmotivarão e buscarão outros caminhos para a sua santificação; ou, poderão se perder por caminhos mais tortuosos. 

Finalmente, a função de gerenciar recursos deve ser mais do que ética, deve ser mística.  Os bens vicentinos não pertencem aos seus líderes, mas aos Pobres.  Estamos cansados de escutar esta frase, mas cada vez mais é difícil encontrar líderes vicentinos que ajam como mediadores dos bens entre os que doam com toda a fé e os que realmente necessitam da caridade.  Gerenciar com ética é ser transparente e honesto, assim como, é gastar somente o necessário para a missão.  Mas, como disse, a ética deve ser utilizada em tudo da nossa vida, portanto, não é suficiente.  Ser um líder vicentino é gerenciar os recursos com mística, isto é, de acordo com o Plano de Deus para nós.  Para os que acham muito difícil entender este Plano, recomendaria duas estratégias: a oração profunda e o compartilhamento das decisões com os demais confrades e consocias de sua Conferência ou de seu Conselho.  Estas duas formas de gerenciar as coisas dos Pobres dificilmente falham.

Tendo detalhado os componentes da trilogia da vocação vicentina e a importância da liderança vicentina para o seu desenvolvimento, gostaria de ir terminando esta introdução com um tema que era muito caro a São Vicente: a importância da inovação para a vocação vicentina.

São Vicente dizia sempre que “a caridade deve ser inovadora ao infinito”.  Hoje em dia, com o desenvolvimento da tecnologia que tem mudado o mundo, a inovação está muito associada a Internet e à economia digital.  De fato, facilidades como a impressão 3-D, a inteligência artificial, o “big-data”, os robôs, os veículos não dirigidos (como drones e carros) têm trazido uma transformação extraordinária à nossa existência.  Se ficamos a mais de 10 metros de nosso celular, entramos em pânico! Já não podemos mais pensar em deixar de estar ligados noite e dia nas mensagens de nossos “grupos de amigos”.  As mudanças tecnológicas nas áreas sociais são fantásticas: a saúde remota, a educação à distância, a construção de casas com impressoras 3-D, a inclusão financeira por celular, as “fazendas digitais” que aumentam a produção de alimentos... enfim, há um número infinito de inovações tecnológicas.  São Vicente estava certo!

Mas inovar não é só tecnologia.  Inovar significa fazer algo de forma nova, para alcançar um objetivo de uma forma mais efetiva (eficiente e eficaz).  Sempre procuro dizer a meus filhos que busquem olhar para as soluções de problemas de uma forma diferente, mais efetiva: sempre há alguma que não estamos vendo e que nos faça alcançar melhor os nossos objetivos. 

Imagino o que o leitor pode estar pensando...  temos que ser mais inteligentes para encontrar estas ideias inovadoras!  Isso não é totalmente verdade: ser inteligente ajuda, mas não podemos contar com isso.  As empresas e laboratórios de inovação inventaram uma série de mecanismos do que chamamos de “inovação aberta”, que envolvem as pessoas relacionadas aos problemas que queremos resolver para obter soluções novas e mais eficientes.  Basta que sejamos abertos a dividir nossos objetivos e nossos problemas e pedir ajuda aos outros.  Em algum lugar do mundo existe uma solução “inteligente” que alguém já pensou ou pode ainda inventar para resolver nosso problema, seja pelas tecnologias digitais ou pelos “métodos tradicionais”.

Então, o que isso tem a ver com os líderes vicentinos?  Eu diria que muito!  Primeiramente, devemos estar “antenados” e, em segundo lugar, devemos “democratizar as soluções”. 

Estar “antenados” significa tentar ajustar qualquer inovação que encontramos por aí às necessidades da SSVP.   Recebemos um número enorme de vídeos em nosso celular sobre inovações; será que, ao receber, perguntamos: “como posso aplicá-las para a minha busca da santificação, para o melhor encontro com o Pobre ou para a defesa da justiça?”

Conheço vicentinos que gravam as suas orações no celular (inclusive o terço), para rezar no trânsito.  Outros que criam grupos de Whatsapp para ajuda à busca de emprego para os assistidos ou para promover a vocação vicentina.  Outros que fazem videoconferências com os membros de seus Conselhos, para evitar gastos de tempo e dinheiro com locomoção.  A transmissão de reuniões do Conselho Geral Internacional pela OzanamTV, inovação criada por vicentinos brasileiros já é uma prática normal e internacional na SSVP.  Imaginem se São Vicente vivesse hoje, como andaria “antenado” em todas as inovações tecnológicas para melhorar a sua missão!

A revolução tecnológica também exige dos líderes vicentinos que se “democratizem”.  Que façam o que o Papa João Paulo II já dizia no final da década de setenta: escancarem as portas do coração para transformar o mundo.  Já não há mais lugar para líderes vicentinos que guardam os problemas ou as decisões para si ou que tenham a pretensão de saber mais do que os outros, porque têm mais idade ou mais experiência vicentina.  Hoje, um adolescente vicentino, se bem motivado, pode ter ideias muito mais inovadoras do que nós!  É preciso, portanto, realizar de fato a “inovação aberta” em todos os níveis da SSVP, realizando concursos de soluções, chamando jovens vicentinos e assistidos para discutir os problemas e soluções, buscando ideias fora da SSVP, em associação com laboratórios de inovação. 

O que antes era hierarquia, hoje se chama rede.  Aliás, este nome tem tudo a ver com o desejo de Ozanam no século dezenove: “abraçar o mundo em uma rede de caridade”.  Utilizar a vocação vicentina nos dias de hoje nada mais é do que seguir Vicente e Ozanam ao mesmo tempo: ser inventivo ao infinito, para criar uma rede universal de caridade!

Que o Espírito Santo nos ilumine em nossa missão de fecundar as almas do próximo com a vocação vicentina!  E que este livrinho possa inspirar-nos a cada reunião de Conferência ou de Conselho (ou a cada visita ao assistido) a aprofundar nossa vocação, desenvolver nossos dons de liderança e inovar, inovar e inovar na caridade!

Este livro é o resultado de um trabalho de três anos.  Ele quer ser uma referência para as leituras espirituais das reuniões semanais das Conferências Vicentinas da Sociedade de São Vicente de Paulo (SSVP).

Por isso, para cada semana, foram incluídas as referências das leituras da missa do domingo correspondente.  Para cada domingo, foi elaborada uma “reflexão vicentina” que tenta colocar as leituras do domingo no contexto da vocação vicentina da SSVP.

As mesmas reflexões podem ser utilizadas na visita aos assistidos da semana correspondente ao domingo.  Com isso, estaríamos - assistidos e membros da SSVP - unidos na mesma reflexão.

Evidentemente, não se espera que as reflexões tenham um conteúdo teológico profundo.  O que se deseja é que sejam de fácil compreensão e de utilização prática para todos os vicentinos e assistidos.  São Vicente de Paulo costumava fazer os exercícios que chamava de “repetições de oração” que serviam para que os seus coirmãos dissessem em grupo como uma leitura (da Bíblia) lhes tinha tocado ao coração no contexto da vida prática.  As reflexões deste livro servem exatamente para o mesmo.

Recomendamos que, ao ler as reflexões (e, eventualmente as leituras impressas ou indicadas) cada membro da SSVP ou da família assistida possa dizer em suas palavras, como elas tocaram o seu coração e como eles podem utilizá-las na vida do dia-a-dia, na sua vida pratica familiar, social, de estudo, de trabalho e de vicentino, como as “repetições de oração de São Vicente”. 

Não é preciso ser culto em religião para expressar como uma leitura toca em nosso coração: as melhores lições de religião que eu tive, vieram de pessoas simples e de religiosos que vivem no meio dos pobres. Isso, evidentemente, não quer dizer que não devamos nos aprofundar nos estudos da religião, se temos acesso a eles e se temos condições de fazê-lo.

Muito importante dizer que este livro não substitui a oração.  Aprendemos muito do simples “deixar-se escutar o que Deus nos quer dizer”.  Como sabemos, São Vicente e Ozanam passavam horas por dia em oração, sempre que possível, diante do Santíssimo Sacramento (Ozanam, em particular, na Capela do Carmo, onde reside o seu corpo).  Aproveito esta oportunidade para compartilhar a seguir o que representa a oração para mim.

A oração para mim e’...

Inspiração

Descanso

Deus falando

Eu ouvindo

Deus ouvindo

Eu falando

Pedido

Agradecimento

Choro

Gozo

Sentir o Espirito Santo

Esperança

Solução

Mudança de direção

Perdão

Ser perdoado

Autocrítica

Confirmação

Autoestima

Louvor

Descanso

Sacrifício

Ser eu mesmo.

Para realizar este livro, contamos com a ajuda de muitos amigos da Família Vicentina.  Um especial agradecimento vai ao Confrade Juan Manuel B. Gómez, atualmente, Presidente do Conselho Nacional da Espanha da SSVP e membro do Conselho General Internacional que fez comentários muito importantes às reflexões e escreveu o prólogo do livro, além de coordenar a tradução para o espanhol (sem ele, este livro não teria sido publicado).  Mas gostaria de agradecer a todos os amigos de dentro e de fora da Família Vicentina que me inspiraram com as ideias e as reflexões contidas neste livro nos últimos 47 anos de minha vida vicentina.

Agradeço em particular à Andrea, minha esposa, quem conheci na Sociedade de São Vicente de Paulo e a meus filhos Thiago e Anna Luiza, pelo que me ensinaram: é este ensinamento que tento expressar nestas reflexões.

Desejo que estas reflexões sirvam de alimento para o aprimoramento de sua vocação vicentina, assim como serviu a mim para escrevê-las.  Que São Vicente e o Beato Ozanam acompanhem você, sua família e seus assistidos no caminho rumo à santidade, ao serviço dos Pobres e à defesa da justiça.

Junho de 2019