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Ano C - Festa da Sagrada Família

A partir de Domingo, 26 Dezembro 2021 até Sábado, 1 Janeiro 2022

Ano C - Festa da Sagrada Família

Leituras: Sir 3,3-7.14-17a; Cl 3,12-21; Lc 2,41-52

 

“Acima de tudo, revesti-vos da caridade, que é o vínculo da perfeição”.

 

Leitura do Livro de Ben-Sirá

Deus quis honrar os pais nos filhos e firmou sobre eles a autoridade da mãe.

Quem honra seu pai obtém o perdão dos pecados e acumula um tesouro quem honra sua mãe.

Quem honra o pai encontrará alegria nos seus filhos e será atendido na sua oração.

Quem honra seu pai terá longa vida, e quem lhe obedece será o conforto de sua mãe.

Filho, ampara a velhice do teu pai e não o desgostes durante a sua vida.

Se a sua mente enfraquece, sê indulgente para com ele

e não o desprezes, tu que estás no vigor da vida,

porque a tua caridade para com teu pai nunca será esquecida

e converter-se-á em desconto dos teus pecados.

 

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Colossenses

Irmãos: Como eleitos de Deus, santos e prediletos,

revesti-vos de sentimentos de misericórdia, de bondade, humildade, mansidão e paciência.

Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente,

se algum tiver razão de queixa contra outro.

Tal como o Senhor vos perdoou, assim deveis fazer vós também.

Acima de tudo, revesti-vos da caridade, que é o vínculo da perfeição.

Reine em vossos corações a paz de Cristo, à qual fostes chamados para formar um só corpo.

E vivei em ação de graças. Habite em vós com abundância a palavra de Cristo,

para vos instruirdes e aconselhardes uns aos outros com toda a sabedoria;

e com salmos, hinos e cânticos inspirados, cantai de todo o coração a Deus a vossa gratidão.

E tudo o que fizerdes, por palavras ou por obras, seja tudo em nome do Senhor Jesus,

dando graças, por Ele, a Deus Pai.

Esposas, sede submissas aos vossos maridos, como convém no Senhor.

Maridos, amai as vossas esposas e não as trateis com aspereza.

Filhos, obedece em tudo a vossos pais, porque isto agrada ao Senhor.

Pais, não exaspereis os vossos filhos, para que não caiam em desânimo.

 

Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo São Lucas

Os pais de Jesus iam todos os anos a Jerusalém, pela festa da Páscoa.

Quando Ele fez doze anos, subiram até lá, como era costume nessa festa.

Quando eles regressavam, passados os dias festivos, o Menino Jesus ficou em Jerusalém,

sem que seus pais o soubessem.

Julgando que Ele vinha na caravana, fizeram um dia de viagem

e começaram a procurá-Lo entre os parentes e conhecidos.

Não O encontrando, voltaram a Jerusalém, à sua procura.

Passados três dias, encontraram-No no templo, sentado no meio dos doutores,

a ouvi-los e a fazer-lhes perguntas.

Todos aqueles que O ouviam estavam surpreendidos com a sua inteligência e as suas respostas.

Quando viram Jesus, seus pais ficaram admirados; e sua Mãe disse-Lhe:

“Filho, porque procedeste assim conosco?  Teu pai e eu andávamos aflitos à tua procura”.

Jesus respondeu-lhes: “Porque Me procuráveis?

Não sabíeis que Eu devia estar na casa de meu Pai?”

Mas eles não entenderam as palavras que Jesus lhes disse.

Jesus desceu então com eles para Nazaré e era-lhes submisso.

Sua Mãe guardava todos estes acontecimentos em seu coração.

E Jesus ia crescendo em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e dos homens.

 

Reflexão vicentina

Neste domingo, celebramos a Sagrada Família.  Para os vicentinos, este tema, e, sobretudo, as leituras têm uma enorme quantidade de significados.  Evidentemente, a primeira reflexão deve se fazer sobre a necessidade de acolher as nossas famílias assistidas, como se cada uma delas fosse de José, Maria e Jesus.  Cada família que assistimos deve ser encarada como a Sagrada Família, com as dificuldades que passaram, seus sofrimentos, mas com a mística da presença real e encarnada de Deus.

 

Mas há outro tema que também deve ser objeto de reflexão para os vicentinos neste dia: o significado de nossa própria família.  Conheço muitos vicentinos que exageram a sua vocação e deixam de lado suas próprias famílias para o serviço, quer aos Pobres, quer às funções de evangelização da SSVP.

 

São Paulo diz claramente que, em nossa família devemos “acima de tudo, revestir-nos da caridade, que é o vínculo da perfeição”.  Portanto, a caridade deve começar em casa.  O perdão deve começar em casa.  O exercício da santificação deve começar em casa!  Nenhum vicentino pode tornar-se santo tendo caridade com o Senhor e Mestre, nosso assistido, sem ter o amor infinito com a sua própria família.

 

Poderíamos fazer muitas reflexões sobre as leituras do domingo, que são enormemente ricas, mas gostaria de tocar a frase talvez mais aparentemente “escandalosa” nos dias de hoje que é a da Carta aos Colossenses de São Paulo.  Ele diz: “Esposas, sede submissas aos vossos maridos, como convém no Senhor.  Maridos, amai as vossas esposas e não as trateis com aspereza”.

 

Como interpretar esta submissão da esposa em relação ao marido?  Que significa isto nos dias de hoje, em que lutamos tanto por igualdade de gênero e pela valorização da mulher?

 

Colocar esta frase no contexto social do ambiente e do tempo de São Paulo é uma resposta óbvia.  Mas há uma resposta mais profunda, contemporânea e menos dependente de qualquer interpretação sociológica.  Em vários lugares no Novo Testamento, a Igreja é apresentada como o corpo místico, ou a esposa de Cristo (por exemplo, em Ef 5, 26).  Ora, o amor que Jesus sente pela sua esposa mística, a Igreja, é tão grande e tão radical que faz com que Ele dê a sua vida por ela: é um amor que vai muito mais adiante da submissão; Ele vai às últimas consequências do sofrimento e da morte.  Este é o amor do marido a que se refere Paulo.  Portanto, o que seria mais escândalo nos dias de hoje: que a mulher se submeta ao marido ou que o marido dê a vida por sua esposa?

 

Entendo que a resposta está nos dois de forma integral.  São Paulo indica claramente que o casamento faz com que os dois esposos se tornem uma só carne (Ef 5, 31).  Então, tanto a submissão quanto o amor radical (até a morte) são atribuições dos dois esposos, como uma unidade física e mística.  Os dois devem se submeter e os dois devem amar de forma integral e radical. 

 

Não devemos ter medo das escrituras, pensando que elas nos diminuem ou nos prendem: na verdade, elas são libertadoras!  Não há sentimento de maior liberdade do que a certeza de que meu esposo ou minha esposa se submete amorosamente a mim ou me ama a ponto de dar a vida por mim.  Não há liberdade (ou desapego) maior do que estar preparado ou preparada para se submeter amorosamente ou morrer por nossa esposa ou esposo!

 

Assim, portanto devem ser as famílias vicentinas.  A mesma humildade que temos com os Pobres, devemos expressar na submissão de amor a nossos esposos ou esposas.  A mesma compreensão que temos com os Pobres, devemos ter com nossos filhos e, não esquecendo, com nossos pais.  A mesma caridade que entregamos aos Pobres, devemos sublimar no tratamento de nossa família.  A santificação vicentina, portanto, de fato, começa em casa.