Ozanet

Ano C - Quinto Domingo da Quaresma

A partir de Domingo, 3 Abril 2022 até Sábado, 9 Abril 2022

Ano C - Quinto Domingo da Quaresma

Leituras: Is 43,16-21; Filip 3,8-14; Jo 8,1-11

 

“Ninguém te condenou? (...) Nem Eu te condeno.  Vai e não tornes a pecar.”

 

Leitura do livro de Isaías

O Senhor abriu outrora caminhos através do mar,  veredas por entre as torrentes das águas.

Pôs em campanha carros e cavalos,  um exército de valentes guerreiros;

e todos caíram para não mais se levantarem, extinguiram-se como um pavio que se apaga.

Eis o que diz o Senhor:

“Não vos lembreis mais dos acontecimentos passados, não presteis atenção às coisas antigas.

Olhai: vou realizar uma coisa nova, que já começa a aparecer; não a vedes?

Vou abrir um caminho no deserto, fazer brotar rios na terra árida.

Os animais selvagens – chacais e avestruzes – proclamarão a minha glória,

porque farei brotar água no deserto, rios na terra árida, para matar a sede ao meu povo escolhido,

o povo que formei para Mim e que proclamará os meus louvores”.

 

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Filipenses

  •  

Considero todas as coisas como prejuízo, comparando-as com o bem supremo,

que é conhecer Jesus Cristo, meu Senhor.

Por Ele renunciei a todas as coisas e considerei tudo como lixo, para ganhar a Cristo

e n’Ele me encontrar, não com a minha justiça que vem da Lei, mas com a que se recebe pela fé em Cristo,

a justiça que vem de Deus e se funda na fé.

Assim poderei conhecer Cristo, o poder da sua ressurreição e a participação nos seus sofrimentos,

configurando-me à sua morte, para ver se posso chegar à ressurreição dos mortos.

Não que eu tenha já chegado à meta, ou já tenha atingido a perfeição.

Mas continuo a correr, para ver se a alcanço, uma vez que também fui alcançado por Cristo Jesus.

Não penso, irmãos, que já o tenha conseguido.

Só penso numa coisa: esquecendo o que fica para trás, lançar-me para a frente, continuar a correr para a meta,

em vista do prémio a que Deus, lá do alto, me chama em Cristo Jesus.

 

Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,

Jesus foi para o Monte das Oliveiras.

Mas de manhã cedo, apareceu outra vez no templo,

e todo o povo se aproximou d’Ele.

Então sentou-Se e começou a ensinar.

Os escribas e os fariseus apresentaram a Jesus

uma mulher surpreendida em adultério,

colocaram-na no meio dos presentes e disseram a Jesus:

Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante adultério.

Na Lei, Moisés mandou-nos apedrejar tais mulheres.

Tu que dizes?”.

Falavam assim para Lhe armarem uma cilada

e terem pretexto para O acusar.

Mas Jesus inclinou-Se

e começou a escrever com o dedo no chão.

Como persistiam em interrogá-lo,

ergueu-Se e disse-lhes:

Quem de entre vós estiver sem pecado

atire a primeira pedra”.

Inclinou-Se novamente e continuou a escrever no chão.

Eles, porém, quando ouviram tais palavras,

foram saindo um após outro, a começar pelos mais velhos,

e ficou só Jesus e a mulher, que estava no meio.

Jesus ergueu-Se e disse-lhe:

“Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?”.

Ela respondeu:

“Ninguém, Senhor”.

Disse então Jesus:

“Nem Eu te condeno.

Vai e não tornes a pecar”.

 

 

Reflexão vicentina

Neste quinto domingo da Quaresma, período de reflexão e penitência, o Senhor nos convida a pensar sobre o que significa o desapego e a esperança.  As leituras do domingo têm um conteúdo muito associado à virtude vicentina da mortificação.  As leituras nos fornecem pelo menos três argumentos: primeiro, não se deve viver no passado; segundo, não devemos perder o tempo presente com coisas irrelevantes; e, terceiro, o que conta é o caminho para o encontro com Deus, na esperança.

 

Antes de mais nada, gostaria de mencionar o que São Vicente definia como virtude da mortificação.  Apesar de parecer um termo um pouco mórbido e negativo, Vicente tinha uma visão muito positiva para esta virtude, porque ela nos permite que nos libertemos das coisas do mundo e sejamos felizes.  Para ele, mortificação está ligada à indiferença e a submeter a paixão à razão.  De forma prática, significa que não nos devemos sentir mártires, quando nos decepcionamos com o mundo, nem tampouco devemos nos deixar levar pelo exagero da valorização das coisas ou das opiniões dos outros.  Sobre este assunto, um dia Vicente disse: “É uma regra geral que todas as pessoas boas serão perseguidas” (assim como foi o maior de todos os exemplos de mortificação, o próprio Cristo).

 

As leituras nos dizem que não devemos viver no passado.  Na leitura do antigo testamento, o profeta Isaías insiste: “não vos lembreis mais dos acontecimentos passados, não presteis atenção às coisas antigas”.  O mesmo diz São Paulo aos Filipenses.  Como vicentinos, não devemos nos preocupar nem com os pecados, nem com os erros que fizemos no passado.  A misericórdia de Deus nos permite ser perdoados sempre e faz corrigir os planos que não executamos bem, porque nos mede pela nossa intenção e não pelos nossos resultados.

 

As leituras nos motivam a não perder tempo com coisas irrelevantes.  Jesus nos convida a não perder tempo julgando e “jogando pedra” nos outros, porque também nós somos frágeis.  São Paulo é um pouco mais rude e vai direto ao assunto, chamando as coisas mundanas de “lixo”: “por Ele (Cristo) renunciei a todas as coisas e considerei tudo como lixo, para ganhar a Cristo e n’Ele me encontrar”.  Não é por outra razão que o próprio Ozanam nos motiva, como vicentinos a não perder tempo com coisas que não nos ajudam na missão de evangelizar o Pobre.  Ele nos diz: “não temos duas vidas, uma para aprender sobre a verdade e outra para transmiti-la”.

 

Finalmente, as leituras nos mostram que o único caminho a seguir é aquele em que se caminha na esperança, ou seja, na direção do encontro com o Senhor, seja nesta vida ou na vida eterna.  Jesus diz à mulher pecadora: “mulher, ninguém te condenou? (...) nem Eu te condeno; vai e não tornes a pecar”.   E ela passou a seguir Jesus.   Paulo se intitula o “atleta de Jesus” e nos diz na Carta aos Filipenses: “só penso numa coisa: esquecendo o que fica para trás, lançar-me para a frente, continuar a correr para a meta, em vista do prêmio que Deus, lá do alto, me chama em Cristo Jesus”.

 

Nossa vocação vicentina, portanto, é baseada em esquecermos o que não foi tão bem no passado, viver as coisas que são importantes para o serviço ao Pobre no presente e caminhar, ou melhor, correr, na única direção da esperança, o encontro com o Cristo.