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Ano C - Domingo de Ramos (Início da Semana Santa)

A partir de Domingo, 10 Abril 2022 até Sábado, 16 Abril 2022

Ano C - Domingo de Ramos (Início da Semana Santa)

Leituras: Is 50,4-7; Filip 2,6-11; Lc 23,1-49

 

“Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito”.

 

Leitura do Livro de Isaías

O Senhor deu-me a graça de falar como um discípulo, para que eu saiba dizer uma palavra de alento

aos que andam abatidos.

Todas as manhãs Ele desperta os meus ouvidos, para eu escutar, como escutam os discípulos.

O Senhor Deus abriu-me os ouvidos e eu não resisti nem recuei um passo.

Apresentei as costas àqueles que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba;

não desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam.

Mas o senhor Deus veio em meu auxílio, e por isso não fiquei envergonhado;

tornei o meu rosto duro como pedra, e sei que não ficarei desiludido.

 

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Filipenses

Cristo Jesus, que era de condição divina, não Se valeu da sua igualdade com Deus,

mas aniquilou-Se a Si próprio.

Assumindo a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens.

Aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz.

Por isso Deus O exaltou e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes,

para que ao nome de Jesus todos se ajoelhem no céu, na terra e nos abismos,

e toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai.

 

Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo São Lucas

"Levantou-se a sessão e conduziram Jesus diante de Pilatos, e puseram-se a acusá-lo:

“Temos encontrado este homem excitando o povo à revolta, proibindo pagar imposto ao imperador e dizendo-se Messias e rei”.

Pilatos perguntou-lhe: “És tu o rei dos judeus?” Jesus respondeu: “Sim”.

Declarou Pilatos aos príncipes dos sacerdotes e ao povo: “Eu não acho neste homem culpa alguma”.

Mas eles insistiam fortemente: “Ele revoluciona o povo ensinando por toda a Judeia, a começar da Galileia até aqui”.

A essas palavras, Pilatos perguntou se ele era galileu.

E, quando soube que era da jurisdição de Herodes, enviou-o a Herodes, pois justamente naqueles dias se achava em Jerusalém.

Herodes alegrou-se muito em ver Jesus, pois de longo tempo desejava vê-lo, por ter ouvido falar dele muitas coisas,

e esperava presenciar algum milagre operado por ele.

Dirigiu-lhe muitas perguntas, mas Jesus nada respondeu.

Ali estavam os príncipes dos sacerdotes e os escribas, acusando-o com violência.

Herodes, com a sua guarda, tratou-o com desprezo, escarneceu dele, mandou revesti-lo de uma túnica branca e reenviou-o a Pilatos.

Naquele mesmo dia, Pilatos e Herodes fizeram as pazes, pois antes eram inimigos um do outro.

Pilatos convocou então os príncipes dos sacerdotes, os magistrados e o povo, e disse-lhes:

“Apresentastes-me este homem como agitador do povo, mas, interrogando-o eu diante de vós,

não o achei culpado de nenhum dos crimes de que o acusais.

Nem tampouco Herodes, pois no-lo devolveu. Portanto, ele nada fez que mereça a morte.

Por isso, eu o soltarei depois de o castigar”.

Acontecia que em cada festa ele era obrigado a soltar-lhes um preso.

Todo o povo gritou a uma voz: “À morte com este, e solta-nos Barrabás.

Este homem fora lançado ao cárcere devido a uma revolta levantada na cidade, por causa de um homicídio.

Pilatos, porém, querendo soltar Jesus, falou-lhes de novo, mas eles vociferavam: “Crucifica-o! Crucifica-o!”.

Pela terceira vez, Pilatos ainda interveio: “Mas que mal fez ele, então?

Não achei nele nada que mereça a morte; irei, portanto, castigá-lo e, depois, o soltarei”.

Mas eles instavam, recla­mando em altas vozes que fosse crucificado, e os seus clamores recrudesciam.

Pilatos pronunciou então a sentença que lhes satisfazia o desejo.

Soltou-lhes aquele que eles reclamavam e que havia sido lançado ao cárcere por causa do homicídio e da revolta,

e entregou Jesus à vontade deles.

Enquanto o conduziam, detiveram um certo Simão de Cirene, que voltava do campo,

e impuseram-lhe a cruz para que a carregasse atrás de Jesus.

Seguia-o uma grande multidão de povo e de mulheres, que batiam no peito e o lamentavam.

Voltando-se para elas, Jesus disse:

“Filhas de Jerusalém, não choreis sobre mim, mas chorai sobre vós mesmas e sobre vossos filhos.

Porque virão dias em que se dirá: Felizes as estéreis, os ventres que não geraram e os peitos que não amamentaram!

Então, dirão aos montes: Caí sobre nós! E aos outeiros: Cobri-nos!

Porque, se eles fazem isso ao lenho verde, que acontecerá ao seco?”.

Eram conduzidos ao mesmo tempo dois malfeitores para serem mortos com Jesus.

Chegados que foram ao lugar chamado Calvário, ali o crucificaram, como também os ladrões, um à direita e outro à esquerda.

E Jesus dizia: “Pai, perdoa-lhes; porque não sabem o que fazem”. Eles dividiram as suas vestes e as sortearam.

A multidão conservava-se lá e observava. Os príncipes dos sacerdotes escarne­ciam de Jesus, dizendo: “Salvou a outros, que se salve a si próprio, se é o Cristo, o escolhido de Deus!”.

Do mesmo modo zombavam dele os soldados. Aproximavam-se dele, ofereciam-lhe vinagre e diziam:

“Se és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo”.

Por cima de sua cabeça pendia esta inscrição: “Este é o rei dos judeus”.

Um dos malfeitores, ali crucificados, blasfemava contra ele: “Se és o Cristo, salva-te a ti mesmo e salva-nos a nós!”.

Mas o outro o repreendeu: “Nem sequer temes a Deus, tu que sofres no mesmo suplício?

Para nós isto é justo: recebemos o que mereceram os nossos crimes, mas este não fez mal algum.”

E acrescentou: “Jesus, lembra-te de mim, quando tiveres entrado no teu Reino!”.

Jesus respondeu-lhe: “Em verdade te digo: hoje estarás comigo no paraíso”.

Era quase à hora sexta e em toda a terra houve trevas até a hora nona.

Escureceu-se o sol e o véu do templo rasgou-se pelo meio.

Jesus deu então um grande brado e disse: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito”. E, dizendo isso, expirou.

Vendo o centurião o que acontecia, deu glória a Deus e disse: “Na verdade, este homem era um justo”.

E toda a multidão dos que assistiam a esse espetáculo e viam o que se passava voltou batendo no peito.

Os amigos de Jesus, como também as mulheres que o tinham seguido desde a Galileia, conservavam-se a certa distância, e observavam estas coisas. "

 

 

 

Reflexão vicentina

Com o domingo de Ramos – desta semana - iniciamos a Semana Santa, na qual recordamos os acontecimentos principais da nossa salvação: Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus. As leituras do Domingo de Ramos resumem o mistério da Paixão e Morte de Jesus.  O Deus que havia se feito carne (se encarnado) pela Virgem Maria agoniza e sofre.  Podemos dizer que houve na história outras pessoas que sofreram tanto quanto Jesus.  A diferença é que Ele era Deus e não precisava se fazer homem e sofrer como sofreu.  A diferença, portanto, é o oferecimento do sofrimento do Rei do Universo por nós, por nossos pecados e para que O sigamos na fé, na esperança e na caridade.

 

Para os vicentinos, a Paixão e Morte de Jesus tem o sentido da doação.  Quando deixamos de lado o nosso natural comodismo para ir ao encontro do Pobre, estamos partilhando um pouco do sofrimento de Cristo, porque fazemos em nome Dele.  Nosso sacrifício pode ser pequeno (apenas uma visita a uns quilômetros de nossa casa) ou pode ser imenso (como o caso dos vicentinos mártires de Ruanda que na guerra civil de 1995 se negaram a deixar de servir os tutsis e hutus igualmente e foram martirizados).  O tamanho do sacrifício não importa.  A diferença está em fazer dele uma doação ao Pobre.  Quando saímos de nossa casa para a visita, é como se, misticamente, estivéssemos experimentando a encarnação de Jesus, porque estamos deixando um pouco de nós mesmos na casa do Pobre.

 

Para os vicentinos, a Paixão e Morte de Jesus tem o sentido do conforto.  Cristo foi abandonado pelos seus melhores amigos, foi traído pelo seu discípulo, foi flagelado pelos que haviam escutado a sua pregação e foi humilhado por todos.  Às vezes, como vicentinos, sofremos muitas injustiças, em particular, quando exatamente lutamos pela justiça.  Às vezes somos um pouco traídos pelos mesmos Pobres que servimos, porque Eles nos enganam.  E ninguém vem ao nosso encontro para nos consolar, em particular quando somos bons e mal compreendidos.  Que bom quando isso acontece!  Estamos vivendo um pouco do que foi a flagelação de Cristo: o consolo vem da própria cruz que compartilhamos.  Essa é uma experiência única e extraordinária: ser confortado no sofrimento do serviço por Aquele que mais sofreu por nós!

 

Para os vicentinos, a Paixão e Morte de Jesus tem o sentido da esperança.  Quando Jesus morreu na cruz, os discípulos se sentiram abandonados.  Parece que tudo parou aí e o sentido da caminhada com Ele se desfez naqueles três dias de flagelo, morte e vazio.  Era preciso que eles passassem por este sentimento, para que a ressurreição fizesse sentido, para que o vazio se transformasse em plenitude e o desespero se transformasse em esperança.  A mística da vocação vicentina é a esperança.  Esperança de que o que fazemos nos faz merecedores da santidade em Cristo.  Não se trata de um acordo de troca (a felicidade pelo sacrifício do serviço)!  Trata-se da esperança de estar já aqui na vida terrena mais perto do Cristo, rezando com Ele no Monte das Oliveiras, humilhando-se com Ele na prisão como se fosse um marginal, sangrando com Ele na flagelação, carregando com Ele a cruz, morrendo com Ele nesta mesma cruz e, finalmente, ressuscitando com Ele para a glória de Deus Pai.

 

Finalmente, a esperança tem o sentido da redenção definitiva de nossos pecados.  Por quê o sacrifício de Jesus nos redimiu?  Porque foi um sacrifício tão grande por amor a nós, que Deus Pai não poderia deixar de se sensibilizar e perdoar-nos do pecado original representado pela negação de Sua divindade e pela soberba que o homem (Adão e Eva) tiveram na criação.  Foi, portanto, um sacrifício, agradável a Deus por excelência.  Para nós vicentinos, além da graça da justificação e da salvação representado pelo sacrifício de Jesus, podemos ter a esperança de que o nosso próprio sacrifício (ainda que pequeno, se comparado com o de Cristo) pode ser oferecido por nós, pelos nossos queridos e, em particular, pelos Pobres que servimos.  É uma belíssima expressão da mística da vocação vicentina!